segunda-feira, 29 de outubro de 2018

... Mãe Divina

Após haver percorrido toda a extensão dessa milenar terra do Egito e presenciado diversas coisas curiosas, regressei aos meus bons amigos que permaneciam em eterna meditação, na orla do deserto da Líbia.
" Dize-me, ó sábia Esfinge! — exclamei — poderia eu descansar meus pés fatigados, que parecem haver caminhado bastante pelos poeirentos caminhos da vida? "

E a Esfinge respondeu:

" Pergunta àquela de quem sou filha única, àquela cujo ventre me deu à luz para sofrer pesares e mágoas do mundo, porque eu também sou um ser humano e aquela é minha mãe, a Terra. Pergunta a ela! "

Caminhei um pouco mais e cheguei à Grande Pirâmide. Penetrei na escura passagem e desci, e arrastando-me às profundezas das entranhas da terra, cheguei àquela mesma cova tétrica. E pronunciando a sagrada palavra de passe, saudei-a, segundo o ensinamento que aprendi no capítulo sessenta e quatro, versículo sétimo do livro mais antigo do Egito.

" Salve! Ó Senhor do Santuário Que permaneces no Seio da Terra!" 

Nisto me sentei no chão rochoso e mergulhei minha mente na sua original quietude, paciente, esperando a resposta.

Quando, afinal, apareceu o Ente Poderoso, Mestre da Divina Morada, roguei-Lhe que me guiasse até onde estava Ela, a "Mestra do Templo Oculto", "A Alma Vivente da Terra".

O Mestre cedeu à minha súplica fervorosa e me levou pela porta secreta que estava oculta no Templo. A Divina Mãe recebeu-me da maneira mais graciosa; entretanto, permaneceu sentada, distante, e intimou-me a fazer meu pedido.
Repeti-lhe a pergunta:

"Dize-me, ó Mestra do Templo Oculto! Podes dar descanso aos meus pés fatigados, que parecem ter andado muito pelos caminhos poeirentos da vida?"

Olhou-me longa e gravemente antes de me responder.

"Há sete caminhos abertos ante ti, ó Buscador! Sete degraus aguardam para serem galgados pelo homem que deseje entrar no meu reino secreto. Sete lições devem ser aprendidas pelos seres humanos que anseiem ver minha face desvelada.
Enquanto não tiveres percorrido todos estes caminhos, subido todos estes degraus e aprendido de cor todas estas lições, não poderás ter descanso para teus pés nem paz para tua alma."

Sua voz meiga, que parecia vir de miríades de éons, ressoou pela Grande Sala do Templo.

— Quais são esses caminhos, ó Mãe Divina?

Respondeu-me:

"Um é o Caminho que leva a Muitas Moradas, outro, a Via que conduz ao Deserto; terceiro, a Rua onde Brotam Flores Vermelhas; quarto, a Subida para as Altas Montanhas; quinto, a Descida nas Cavernas Obscuras; sexto, o Caminho do Eterno Errar, e o sétimo é a Via de Quietude Silenciosa."

Perguntei:

— Quais são esses sete degraus?

"O primeiro — disse Ela — é das Lágrimas; o segundo, a Oração; o terceiro, o de Trabalho; o quarto, o Repouso; o quinto, o da Morte; o sexto, da Vida, e o último é da Entrega."

— E as sete lições que deve aprender o homem,  ó Mãe! Quais são?

"O Prazer — respondeu — é a primeira e a mais fácil; a Dor é a segunda; o ódio a terceira; a Ilusão a quarta; a Verdade a quinta; o Amor a sexta, e a Paz aprende-se por último."

Ponderei a respeito do que ouvi.

A Mestra do Templo Oculto então se levantou e retirou-se da Grande Sala, e vi nas suas costas uma grande estrela de ouro, e dentro da estrela, uma coroa resplandecente e duas meias-luas de prata. Embaixo da coroa havia uma cruz branca, e ao redor da cruz, sete rosas vermelhas.
Na parede do fundo de um azul carregado vi aparecer, de súbito, muitas palavras brilhando como jóias. E foi-me ordenado ler só as últimas dessas palavras.
Eram estas:

... pois o Egito é a imagem das coisas dos céus e, em verdade, um templo do mundo inteiro.
E quando o Egito testemunhar estas coisas, então, o Senhor e Pai, Deus Supremo, Primeiro em Poder e Governador do Mundo, escrutará os corações e os atos dos homens e, por Sua vontade, poderá devolver-lhes sua antiga magnificência, a fim de que o mundo possa aparecer realmente como a obra adorável de Suas mãos."


Paul Brunton
O Egito Secreto


Apego espiritual...

Tenho um amor emersoniano pela liberdade espiritual e independência intelectual, um anseio krishnamurtiano de permanecer afastado de instituições, organizações e grupos que estreitam, limitam e restringem.

Já vi a causa da Verdade sofrer tantas perdas por causa dessas constrições da mente e do coração, vi tanto de seu bem arruinado por esse mal, que me encolho diante da ideia de me tornar rotulado como discípulo de algum homem ou membro de algum ashram, sociedade ou igreja.

Se esse homem descobriu o Correto, porque não deixar que sua expressão natural — na literatura, na arte ou na vida — seja suficiente? 

Por que criar um mito em torno dele, obscurecer os outros e falsificar a meta? Por que não deixar tudo como é?

Paul Brunton
A Busca

Alterações nos textos e ensinamentos religiosos...

O misticismo asiático quase foi sufocado sob o peso das tradições monásticas que se acumularam à sua volta. A consequência é que o estudante de hoje, sem espírito de pesquisa crítica, não vai saber onde começa a filosofia e onde termina o monaquismo. 

Se, atualmente, estudarmos os textos disponíveis sem a orientação de um instrutor competente, certamente cairemos em muitos erros. Alguns desses erros meramente contribuem para uma compreensão superficial dos textos e não causam, realmente, nenhum mal, mas um é crucial e pode causar grande mal. Porque é preciso lembrar que, antes de a arte da escrita ser largamente usada, quase todos os textos antigos eram transmitidos apenas oralmente, de geração a geração. Isso pressupõe maravilhosos feitos de memória que devemos admirar, mas pressupõe também a possibilidade de alterações conscientes ou inconscientes nos próprios textos, contra as quais devemos precaver-nos. É preciso lembrar, também, que os textos ficavam, geralmente, em posse de uma classe segregada de homens, que eram padres, ou monges, ou ambas as coisas. É bem humano que novas passagens que louvavam sua própria classe e idealizavam seu modo de vida fossem lenta e sub-repticiamente introduzidas nesses textos. Pode-se dizer que um homem honesto não faria isso, mas pode-se replicar que um homem honesto mas bem-intencionado pode fazê-lo. Qualquer um que conheça realmente o Oriente sabe que isso ocorreu, de forma comprovável, através de sua história, até mesmo em nossa era. 
Mas, tendo ou não ocorrido isso, uma coisa era psicologicamente inevitável: a interpretação de passagens, de frases ou de simples palavras, de acordo com os complexos inconscientes que governavam as mentes e controlavam o caráter daqueles que preservavam e transmitiam os textos. 

É perfeitamente natural, portanto, esperar que as práticas características e interesses monásticos e sacerdotais fossem idealizados, enquanto as práticas, características e interesses de todas as outras classes fossem diminuídas e criticadas. Descobrimos que esse é, na verdade, o caso. A consequência inevitável é que palavras que tinham um sentido quando foram proferidas pelo autor original receberam, pouco a pouco, um sentido modificado ou totalmente diferente ao passarem pelas bocas e canetas de monges e padres. Nosso estudo semântico, por si só, indica essa probabilidade histórica. O resultado para nós, que vivemos hoje, é um pouco infeliz. Porque aprendemos nesse texto que, para vivermos uma vida superior, para empreendermos a busca do Eu Superior, devemos deixar de lado nossos deveres, descartar nossas responsabilidades e negar nossa natureza física. Devemos desencorajar o interesse pelo aperfeiçoamento deste mundo ou pela melhoria do destino miserável da humanidade. Devemos fugir da sociedade e esconder-nos em retiros com outros escapistas. Devemos considerar o mundo como uma armadilha astuciosamente inventada por Satã para nossa ruína, e o corpo como uma tumba cavada para nossa alma divina. 
Quem se recusa a aceitar o caminho delineado pela interferência editorial dos monges e sacerdotes é humilhado, pois atiram-lhe no rosto as próprias palavras e citações, nascidas dessa interferência, como prova de seu erro! A busca divina, originalmente destinada a ser estudada e praticada pela humanidade em geral — seja qual for a posição, classe ou profissão no mundo — transformou-se agora em algo a ser estudado e praticado apenas por monges e ascetas. Homens obcecados por um complexo persistente que os levou a preocupações exageradas e ansiosas em torno da vida corpórea em detrimento da vida mental; homens que não conseguiram perceber que o campo de batalha real da vida humana é interior e não exterior; homens que não puderam compreender a unidade de Espírito e matéria: homens, em suma, que não chegaram a perceber que eram fundamentalmente virtuosos ou pecadores na medida em que seus pensamentos eram virtuosos ou pecadores — esses são, atualmente, os árbitros que julgam como nós, pessoas do século vinte, devemos viver num mundo cujas circunstâncias e sistemas estão além de sua estreita imaginação. A busca, na verdade, transformou-se em algo absolutamente distante de nós, algo somente a ser discutido na hora do chá, pois não pode ser efetuada Essa situação é inaceitável para o estudante de filosofia. Melhor o ostracismo, o insulto, a calúnia e a falta de compreensão do que isso.

Paul Brunton
A Busca


Caminho Solitário...

"É questionável que um aspirante deva filiar-se a um grupo específico ou ligar-se a um instrutor. 

Isso ajuda muitos iniciantes, e geralmente a maioria deles faz isso de algum modo. Mas eles são do tipo comum. Quando alguém começa a fazer um avanço real, surge a necessidade de um caminho individual, que não seja obstruído pelos outros, que não seja desviado por suas sugestões. 

O trabalho interior deve então prosseguir com a orientação de sua própria percepção intuitiva, juntamente com os indicadores fornecidos pelas circunstâncias exteriores na medida em que aparecem."

Paul Brunton
A Busca