segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Alterações nos textos e ensinamentos religiosos...

O misticismo asiático quase foi sufocado sob o peso das tradições monásticas que se acumularam à sua volta. A consequência é que o estudante de hoje, sem espírito de pesquisa crítica, não vai saber onde começa a filosofia e onde termina o monaquismo. 

Se, atualmente, estudarmos os textos disponíveis sem a orientação de um instrutor competente, certamente cairemos em muitos erros. Alguns desses erros meramente contribuem para uma compreensão superficial dos textos e não causam, realmente, nenhum mal, mas um é crucial e pode causar grande mal. Porque é preciso lembrar que, antes de a arte da escrita ser largamente usada, quase todos os textos antigos eram transmitidos apenas oralmente, de geração a geração. Isso pressupõe maravilhosos feitos de memória que devemos admirar, mas pressupõe também a possibilidade de alterações conscientes ou inconscientes nos próprios textos, contra as quais devemos precaver-nos. É preciso lembrar, também, que os textos ficavam, geralmente, em posse de uma classe segregada de homens, que eram padres, ou monges, ou ambas as coisas. É bem humano que novas passagens que louvavam sua própria classe e idealizavam seu modo de vida fossem lenta e sub-repticiamente introduzidas nesses textos. Pode-se dizer que um homem honesto não faria isso, mas pode-se replicar que um homem honesto mas bem-intencionado pode fazê-lo. Qualquer um que conheça realmente o Oriente sabe que isso ocorreu, de forma comprovável, através de sua história, até mesmo em nossa era. 
Mas, tendo ou não ocorrido isso, uma coisa era psicologicamente inevitável: a interpretação de passagens, de frases ou de simples palavras, de acordo com os complexos inconscientes que governavam as mentes e controlavam o caráter daqueles que preservavam e transmitiam os textos. 

É perfeitamente natural, portanto, esperar que as práticas características e interesses monásticos e sacerdotais fossem idealizados, enquanto as práticas, características e interesses de todas as outras classes fossem diminuídas e criticadas. Descobrimos que esse é, na verdade, o caso. A consequência inevitável é que palavras que tinham um sentido quando foram proferidas pelo autor original receberam, pouco a pouco, um sentido modificado ou totalmente diferente ao passarem pelas bocas e canetas de monges e padres. Nosso estudo semântico, por si só, indica essa probabilidade histórica. O resultado para nós, que vivemos hoje, é um pouco infeliz. Porque aprendemos nesse texto que, para vivermos uma vida superior, para empreendermos a busca do Eu Superior, devemos deixar de lado nossos deveres, descartar nossas responsabilidades e negar nossa natureza física. Devemos desencorajar o interesse pelo aperfeiçoamento deste mundo ou pela melhoria do destino miserável da humanidade. Devemos fugir da sociedade e esconder-nos em retiros com outros escapistas. Devemos considerar o mundo como uma armadilha astuciosamente inventada por Satã para nossa ruína, e o corpo como uma tumba cavada para nossa alma divina. 
Quem se recusa a aceitar o caminho delineado pela interferência editorial dos monges e sacerdotes é humilhado, pois atiram-lhe no rosto as próprias palavras e citações, nascidas dessa interferência, como prova de seu erro! A busca divina, originalmente destinada a ser estudada e praticada pela humanidade em geral — seja qual for a posição, classe ou profissão no mundo — transformou-se agora em algo a ser estudado e praticado apenas por monges e ascetas. Homens obcecados por um complexo persistente que os levou a preocupações exageradas e ansiosas em torno da vida corpórea em detrimento da vida mental; homens que não conseguiram perceber que o campo de batalha real da vida humana é interior e não exterior; homens que não puderam compreender a unidade de Espírito e matéria: homens, em suma, que não chegaram a perceber que eram fundamentalmente virtuosos ou pecadores na medida em que seus pensamentos eram virtuosos ou pecadores — esses são, atualmente, os árbitros que julgam como nós, pessoas do século vinte, devemos viver num mundo cujas circunstâncias e sistemas estão além de sua estreita imaginação. A busca, na verdade, transformou-se em algo absolutamente distante de nós, algo somente a ser discutido na hora do chá, pois não pode ser efetuada Essa situação é inaceitável para o estudante de filosofia. Melhor o ostracismo, o insulto, a calúnia e a falta de compreensão do que isso.

Paul Brunton
A Busca


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