quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Bem-aventurados os que sofrem perseguições por causa da justiça...

Bem-aventurados os que sofrem perseguições por causa da justiça, porque deles é o reino do céu. Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa."



Também combinei num só verso estas duas sentenças, por estarem tão intimamente relacionadas entre si. Assim chegamos a uma sétima e final beatitude. Há uma profunda razão para que Jesus finalizasse com este pensamento. Na misteriosa matemática que governa o cosmos, o número sete é o número de culminação evolucionária, o número da complementação espiritual. Notar-se-á que tanto no início como no final das beatitudes, Jesus menciona o reino do céu, que é a Eterna Realidade. Quem atingiu esta divina Consciência, dali em diante identifica seus próprios interesses com os do Todo. O bem-estar de todas as criaturas viventes está junto de seu próprio coração. A sutil unidade da vida por trás das miríades de vidas individuais, ele a conhece por experiência pessoal. Daí que a sua atitude para com todos seja a de perfeita simpatia. A esta regra ele não pode fazer nenhuma exceção. Tal como o sol ilumina igualmente bons e maus, assim o homem cujo coração mora no reino do céu, irradia sua própria luz, por igual, sobre bons e maus. Isto é, ele existe dentro do elemento do amor divino.

Assim, é só quando vossa própria vida se torna divina que descobris a divindade atrás das vidas dos demais. Quando rea-lizais a Verdade — quando descobris o Eu Universal, ou o Super-eu, quando o realizais e conheceis verdadeiramente, então descobrireis que existe apenas o Eu Único, o Ser Único — então conhecereis o real significado do amor. Tereis uma tolerância e simpatia que “ultrapassam todo entendimento".

A mais alta expressão do amor provém do entendimento e de mera emoção ou sentimento. O amor baseado no entendimento é a habilidade de vos pordes em harmonia com toda criatura, de conhecerdes como todos pensam e sentem, e o fazerdes com integral simpatia. Do reservatório do amor da sabedoria pensais e agis em perfeita harmonia com todas as criaturas vivas.

“Amor” é uma palavra ultra-abusada, mas eu a emprego ao melhor sentido possível, o qual significa simplesmente isto: que experimentareis harmonia com todo o Universo, com todos os seres vivos, com todas as criaturas manifestadas. Vós as amareis todas porque encontrastes dentro delas a mesma essência divina que está em vos.  Todas elas brotam de uma mesma raiz, e essa raiz é o Super-eu. São humanamente aparentadas e divinamente relacionadas convosco; através do Super-eu podeis compreendê-las e com elas simpatizar plenamente. Há em realidade apenas um Super-eu. E encontrando-o, encontrareis o Super-eu da outra pessoa, e quando o encontrardes, entrareis automaticamente em perfeita harmonia com a outra pessoa, quer ela o saiba ou não. Daí que tanto dareis como recebereis amor. Manifestais para com essa pessoa uma atitude idêntica ao sentimento que manifestais para com vossa própria personalidade. Haverá completa e perfeita harmonia com todos os demais, no sentido de que os outros não são basicamente diferentes de vós. 

Este é o sétimo fruto do atingimento. Existe amor real quando há a verdadeira identificação interna com a vida de outra entidade. Inevitavelmente tornareis os interesses de todos os seres tão caros a vós como os vossos próprios interesses. Dentro de vós nascerá uma grande compaixão pela humanidade ignorante e sofredora. O bem-estar de todas as criaturas será vosso. Nenhum estreito nacionalismo pode circunscrever o amor que sente o adepto pelo seu próximo. O amplo mundo é seu lar. Além disso, vós também recebereis amor — não de todos, embora o deis a todos, mas de alguns que são suficientemente sensíveis para discernir vossa invariável atitude interna para com eles — ainda que seja apenas de uns poucos. Mas certamente o recebereis num único sentido, porque todos estão à procura desta vida divina, quer o saibam ou não. Procurando-a, devem necessária e inevitavelmente amar-vos, ainda que inconscientemente, se a encontrastes, porque automaticamente lhes tornais acessível um caminho para aquilo que procuram. Não necessitais fazer nenhum esforço externo para ajudá-los. Bastará vossa simples presença, porque sois um conduto do mundo do Infinito para os vossos próximos finitos. Se buscam conscientemente, então eles compreenderão melhor e talvez vos amem conscientemente.

Mas por que alertou Jesus a Seus discípulos que esperassem perseguições? Por que, numa outra ocasião, enviou Ele seus doze apóstolos ao mundo com a forte advertência: “Eis que envio como ovelhas em meio de lobos: sede, pois, prudentes como serpentes e inofensivos como pombas”. O peregrino instrutor galileu quis evidentemente dizer que não bastava ser apenas bom, nem apenas inofensivo. Tendes também que ser astuto como a cobra, uma das mais astutas criaturas.

Por quê?

Porque todo este mundo, este vasto universo e o panorama da vida que se estende por sua superfície, é a interação de duas forças cósmicas, a involução e a evolução, a criação e a destruição, chamadas ora o bem ora o mal. Da nebulosa atmosfera do começo cósmico nasce a infindável procissão destes poderes gêmeos. Eles estão sempre em atividade e assim estarão até o desaparecimento do universo. Deveis perceber como, por esta luta, esta constante interação e inevitável conflito, este desconcertante conflito de forças, a maravilhosa corrente de vida flui através do mais variegado cenário, de sorte a receber as mais ricas experiências. Assim o homem é feito, seu caráter é formado por suas lutas com o elemento adverso da Natureza, e a oposição é por fim transformada em oportunidade. Seus cambaleantes passos acabarão levando-o à meta divina. Destarte a história se converte algo mais do que um mero fio de acontecimentos isolados, mais do que uma fortuita cadeia de ocorrências, e mais do que um lúgubre catálogo de impérios arruinados.

Agora estamos mais bem preparados para atinar por que Jesus advertiu a Seus apóstolos que esperassem por transtornos. O elemento adverso existe na Natureza tanto para destruir a obra prática das mentalidades divinamente construtivas como para opor-se ao uso da luz pelos seres divinamente guiados. Nenhum autêntico profeta, nenhum verdadeiro apóstolo da Divindade tem a ventura de lançar-se no mundo e percorrê-lo numa sagrada missão de ajuda e serviço espirituais, sem deparar com a hostilidade destas forças tenebrosas. Estas acham instrumentos humanos cegos e inconscientes por meio dos quais podem obstar as atividades altruístas de homens iluminados. Não raro tais inimigos desencaminhados são lançados ao exercício do criticismo, falsidade, calúnia, malícia, ódio, e finalmente, a atos de violência pessoais, como o prova a própria crucificação de Jesus. 

Não que Jesus temesse a morte. Quem conhece a Verdade a respeito da vida não cuida a sério se ele morre ou vive, pois não se identifica com o corpo. Para ele a morte nada mais significa senão nascimento. A vida única é eterna. Nunca nasceu nem nunca pode morrer. Continuará por todo o sempre. Realizando esta infinita paz, por que há de o conhecedor da Verdade amimar indevidamente o corpo? Ele está plenamente preparado para desfazer-se de seu corpo a qualquer tempo, pois a morte perdeu o seu terror.

A longa linha de místicos que foram martirizados, e de profetas que foram punidos porque ousaram proferir as espantosas verdades brotadas de seus corações, explica-se. A verdade mais alta dissolve o poder dos credos e destrói as injunções de castas; ela vem para libertar o homem e derreter suas cadeias autoforjadas. Que admirar, pois, que os donos do mundo, que defendem lugares entrincheirados, temam as vozes divinas e procurem silenciá-las?

Ninguém, que ouse promulgar uma mensagem recebida de uma fonte superior, que ouse expressar a visão estranha a este mundo, pode torná-la conhecida sem ter de sofrer uma legião de críticas, uma infinidade de incompreensões, as aguçadas setas da inveja, e as amargas falsidades dos inimigos. Mas, se é sincero, ele emergirá, por causa de uns poucos, dos calmos e enclausurados retiros que sempre estão abertos para ele. Estará preparado para receber grata, compreensiva e simpaticamente o que lhe suceda. É por causa desses poucos que ele suporta as ofensas e ferimentos que outros lhe causam. Não procura fazer conversos. Ele surge para familiarizar os indivíduos com certos fatos, não para convertê-los. Pois

Convencer um homem contra a sua vontade
É mantê-lo na mesma opinião.

Mas nós vivemos no meio de acontecimentos mundiais trepidantes. O desesperado clamor de milhões de homens e mulheres, a agonizada indagação de milhares de almas perplexas, mas sinceras – erguem-se até os lugares mais alcandorados e bradam tumultuosamente às próprias portas do Olímpio.  Deste planeta manchado de sangue se levanta uma nuvem vermelha, que roça os olhos dos deuses; ela se move ao compasso dos incessantes gritos que também ecoam no Olimpo.

Em todas as estatuetas Buda é representado com grandes orelhas pendentes, porque, como deus sob forma humana, ele possuía o sentido super-humano que ouvia todas as agudas agonias da Humanidade. E assim não necessitamos de ficar surpresos se seres menores que Buda ouvem o grito do mundo e vêm até nós para trazer-nos sua paz, verdade e amor.

São esses os sete prêmios que podemos esperar encontrar quando terminarmos a busca. Mas, lembrai-vos, tudo é realmente um único prêmio, um divino estado de ser. O intelecto é que, examinando-o, analisando-o, criticando-o, seccionando-o, produz estes sete aspectos. Há essencialmente este único estado, e sempre, espontaneamente, ele reúne o que quer que demande dele cada circunstância. Não pode seccionar-se; é todo-abarcante.

Depois de tudo, as palavras não passam de meros rótulos e nomes. Existe tão-só uma consciência última para ser encontrada, e a variedade de nomes não lhe faz nenhuma diferença. O que o cientista chama Realidade Desconhecida, o budista Nirvana, o hindu Libertação, Jesus o Reino do Céu, o iogue Concentração, o místico União com Deus e o sábio Autoconhecimento, nós chamamos precisamente o mesmo, isto é, clara e consciente realização do que realmente sois. Isto traz consigo o preenchimento de vosso propósito aqui na Terra, e de todos os modos: física, mental e espiritualmente. É serdes transcendental, uma vida acima da matéria e da mente. Se encontrarmos esta vida superior — e realmente não há nenhum “se” a esse respeito, porque não há escape, é o único destino final aberto ao homem, ainda que a Natureza seja paciente e espere milhões de anos esse preenchimento, se for necessário — quando a encontrarmos, obteremos a bela condição descrita pelo Mestre Jesus nas simples beatitudes, finalmente enunciadas.

Que inúteis cargas de palavras levam nossos livros! Que é todo o nosso preenchimento intelectual comparado com esta realização espiritual? Os decantados literatos de ambos os hemisférios parecem pigmeus no desfilar da vida, ao lado dos homens divinos que se encontraram a si mesmos. Disse algures H.G. Wells que as grandes verdades universais eram tão poucas que poderiam ser escritas num cartão postal. Se já houve alguém capaz de as condensar num espaço assim tão pequeno, esse foi Jesus.


Paul Brunton

A Realidade Interna


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