domingo, 15 de maio de 2016

A Guerra e o Mundo

A Crise Pessoal


A guerra é uma catástrofe de tal ordem que os homens tentam evitá-la. Assim, lutam, discutem,
inventam, imaginam soluções políticas, quase sempre insuficientes visto que a guerra existe no pensamento humano muito antes de se concretizar pelas armas.

O que é necessário, pois, é corrigir o pensamento operante. Quando se despertarem para uma concepção mais metafísica, os homens perceberão que, combatendo as ideias e os sentimentos que dão origem aos conflitos armados, podem cortar o flagelo pela raiz. As conferências políticas podem produzir uma paz verbal, mas deixarão milhares de pessoas odiando-se entre si. Evidentemente, a guerra, como o fogo sob as cinzas, prosseguirá de modo invisível. Precisamos nunca perder de vista que a paz real não pode existir senão depois de haver sido estabelecida no coração dos homens.

Os numerosos erros cometidos na ação, os pecados contra a moral são imputáveis ao erro de pensamento inicial, a primeira falta de compreensão. As verdadeiras raízes dos combates fratricidas jazem na natureza humana, sendo que as raízes sociais, políticas e econômicas são secundárias. O pensamento é criador. Os apetites e os ódios, a inveja e o ciúme tomam, cedo ou tarde, as formas que recentemente tivemos sob nossos olhos. Os que as deploram devem compreender que a melhor maneira de agir contra elas é penetrar em suas causas profundas. O meio mais eficaz de ajudar a humanidade é descobrir e espalhar a verdade que há nelas. As instituições humanas vêm de seu coração e de sua mente. Se seu pensamento é imperfeito, se os sentimentos são baseados no egoísmo, as instituições procederão desta imperfeição e desta corrupção; não podem melhorar senão quando forem a expressão de uma atitude mais nobre ou quando forem a voz dessa misteriosa aspiração na direção do Eu Superior. Se as pessoas mostrassem somente a metade do entusiasmo com que acolhem os reajustamentos políticos ao obedecer a seus impulsos elevados, obteriam um mundo melhor e mais rapidamente, com mais segurança e mais facilidade.   Porque, no fim de contas, cada problema social se torna o problema pessoal.  Pela simples razão de que cada um, como membro da sociedade, se conduz mal, a sociedade age mal em seu conjunto.   Procurando conseguir um mundo novo e melhor sem procurar antes novos e melhores homens, chegaremos por força a uma segunda edição do primeiro mundo que tanto nos atormentava. O que é importante reconhecer é que a maior parte dos homens não quer transformar seu caráter. A vida se encarrega logo dessa tarefa com o triste acompanhamento das trombetas de Marte.

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A guerra é um despertador. Uma de suas funções é acelerar a circulação de novas ideias. Como um vendaval varre num repente todas as teias de aranha econômicas, politicas, técnicas, sociais, culturais e religiosas, em parte porque os homens são medrosos ou muito estúpidos para varre-las antes sob a indicação da razão. Mas, sobretudo, põe a humanidade a prova. Desvenda todas as falsas fisionomias e mostra as coisas tais como elas são, cruas e objetivas. Faz aparecer sob sua pressão nossas formas e nossas fraquezas ocultas. Em relação a nós, podemos fazer descobertas alarmantes ou consoladoras, mas, sem dúvida alguma, nos obriga a ver onde é que nós achamos realmente e qual e o valor intrínseco das nossas instituições sociais e culturais. Houve sempre na História períodos em que a sociedade e os regimes, a cultura e suas ideias, a religião e suas crenças, os potentados e seus vassalos foram passados na peneira para sofrer uma reavaliação. Mas nunca de modo tão profundo, extenso e radical como atualmente.

Do mesmo modo que os grupos e os governos procuraram impedir a guerra, ignorando que era inevitável e fazendo concessões ou isolando-se, os indivíduos também procuraram, pela atração do prazer ou pela indiferença, evitar de fazer face a sua pobreza interior até que as bombas, as torturas e os terrores da luta armada vivessem constrangê-los, provocando uma crise interior. Num pequeno livro que escrevi há vários anos, antes da guerra, tinha dito: "Aproxima-se a hora em que nosso mundo se encontrará consigo mesmo e verá sua própria fisionomia sem máscara. Será o momento de pesar todas as coisas na balança".   A guerra nos aproximou de fato do conhecimento de nós mesmos, mostrou-nos cimos e precipícios morais insuspeitados.

Filosoficamente, o efeito mais importante da guerra é a série de choques que causou à consciência da humanidade. Estes choques foram de ordem kármicas, mas cosmicamente coordenados no tempo. Em outras palavras, a pressão evolucionária, exercendo-se do interior, sincronizou-se com a pressão cármica do exterior; o apelo do Eu Superior se harmonizou com a lógica dos acontecimentos, o que lhes conferiu uma potência considerável, que, agindo pela repetição, feriu fortemente abaixo da consciência superficial.   Assim, os hábitos irrefletidos foram abalados, como também as tradições egoístas que durante muito tempo a concepção materialista havia nutrido. O resultado mais importante destes choques psicológicos foi o de haver despertado a memória mais profunda.

De ordinário, não prestamos atenção a importância capital da memória. Isto se deve ainda a crença materialista que a considera apenas uma faculdade física, o que não é absolutamente. Isso sim, uma faculdade metafísica, isto é — mental.   Como já vimos, forma-se de lembranças revivificadas que a Mente-Mundial põe em jogo quando soa a hora cármica para o renascimento de um universo. Quando consideramos o espírito individual, descobrimos, no fim, que todo o mal moral, que contém, o deve a um defeito de memória: o homem, havendo esquecido sua origem divina, em sua longa sujeição as coisas transitórias, ignora que não faz senão um com o seu próximo e não age senão em seu interesse pessoal. Este esquecimento não é duradouro. O verdadeiro conhecimento e a verdadeira divindade esperam sua hora por trás desse mal e desse pecado, dessa ignorância e desse materialismo. Para curar completamente o mal moral, o remédio deve ser duplo como a doença: primeiramente, deve fazer compreender aos homens o caráter degradante de sua sujeição das coisas materiais e conduzi-lo ao arrependimento; em segundo lugar, deve revelar sua natureza mais alta levando a se lembrar. Na história espiritual do indivíduo há sempre um momento em que, por exemplo, um luto cruel, uma grave perda, o naufrágio de suas ambições, uma doença física, vem enfraquecer seu gosto pelo mundo e diminuir sua vontade de viver. Por um momento se afasta dos prazeres sensuais e deixa planar uma nuvem de tristeza em sua alma.   Esta nuvem passa, naturalmente, mas inspira o desejo de reencontrar satisfações independentes das coisas exteriores e faz começar a pesquisa da realidade interior.

A guerra fez compreender o caráter efêmero dos bens terrestres a uma multidão de homens e de mulheres que não tinham tido para ela um pensamento sequer até aqui. Constituiu uma iniciação vasta e brutal, a necessidade da renúncia. Que significa a palavra "renuncia"?  Os religiosos e os ascetas lhe dão um outro sentido, não o do filósofo. Não significa que seja preciso preferir privações a nutrição normal, habitar um casebre, trocar a prosperidade pela pobreza. Não significa certamente que seja necessário abandonar mulher, filhos, pais, amigos e situação social.  Os que lhe dão essa significação cometem o erro de confundir dois planos morais, de recomendar como prática universal uma atitude moral que não é plenamente justa senão para eles mesmos que renunciaram externamente o mundo ao se fazerem monges.  A renúncia do filósofo é de outra natureza. Conhecendo o caráter transitório de todas as coisas, recusa-se a buscar a felicidade permanente em nosso plano terrestre, conservando sempre por trás de seu cérebro e no fundo de seu coração um estado de alerta contra toda a tendência a fazer depender essa felicidade de uma coisa qualquer da terra ou de criatura viva. Ele aceitará o melhor que o mundo lhe ofereça, se puder, ao mesmo tempo que está prestes constantemente a acolher o pior.   Conhece, com efeito, a verdadeira natureza do mundo e coloca sua fé derradeira onde não pode existir nem pessoa nem coisa constituída. Não tem, de fato, senão o apego do Eu Superior.

Os antigos sábios asiáticos observaram que quatro gêneros de pessoas procuram a Realidade final: as que tem sede de conhecimento, as que desejam ardentemente a felicidade, as que, por sua vasta experiência, se tornaram sábias, e enfim, as que são expostas a um grave perigo e cedem assim ao medo. Este medo não e somente um mecanismo psicológico instintivo de proteção ao corpo humano, mas também um aguilhão que leva o espírito a refletir com mais cuidado. Em consequência da guerra, uma enorme quantidade de pessoas, em numerosos países, foi colocada involuntariamente nesta quarta categoria. As destruições e as devastações as obrigaram a refletir, embora pouco, sobre a significação da morte. Esta reflexão as pôs automaticamente em caminho e em busca do Eu Superior. Por causa das diferenças mentais e morais entre as pessoas, o modo de abordar a pesquisa superior se fez em critérios diversos — religioso, místico ou metafísico, enfim filosófico. A Nossa época fez, portanto, nascer um interesse em todos esses domínios.

É na religião, que constitui um reconhecimento velado da Realidade, que as massas procuram mais facilmente um recurso contra seus desesperos terrestres.   Ela faz mais apelo aos sentidos do homem que o misticismo e, portanto, está mais ao seu alcance. Floresce sempre em tempo de guerra por que satisfaz a necessidade sentimental de obter uma consolação imediata e um alívio elementar, sem exigir esforço intelectual.   "O desespero ensina a rezar", diz um provérbio europeu dos mais banais e mais verdadeiros.

Tal é o primeiro passo na boa direção, embora o caminho que resta seja bem longo a percorrer.   O segundo é de natureza mística ou metafísica, conforme o homem tem predominância sentimental ou intelectual. Muitas pessoas, entretanto, alimentam as duas tendências a um tempo e se põem em caminho pelas duas vias. O misticismo oferece uma experiência prática e pessoal suprafísico no prosseguimento dos exercícios de meditação, enquanto que a metafísica oferece uma explicação racional suprafísica do universo em termos de concepções abstratas. Uma vida que não acha tempo para preocupar-se com a busca mental ou com a reflexão judiciosa, se engana a si mesma.    Felizes aqueles que conhecem a paz proporcionada pela primeira via e os que gozam do conhecimento encontrado na segunda. Pelo fato de ser imensamente mais fácil achar razões para nossos sentimentos do que para nossa inteligência, e sabendo-se que a busca da satisfação pessoal é infinitamente mais sedutora que a da verdade intelectual impessoal, o misticismo sempre conheceu muito mais aderentes que a metafísica. Os acontecimentos da guerra e do após-guerra fizeram nascer uma necessidade de satisfação mística ainda mais insistente e criou um estado mais ou menos patológico em vastas camadas de pessoas. O desejo de cuidar dos sentimentos que sangram, de acalmar os nervos excitados, de cicatrizar ferimentos morais é muito mais vivo que o de procurar uma nutrição intelectual. Em consequência disso, indivíduos ou grupos, no mundo inteiro, começaram a compreender a importância da meditação regular que acarreta uma paz tão benfazeja a personalidade.

A purificação voluntária da mente e dos sentimentos pela eliminação das reações de natureza animal, de todos os pensamentos negativos inspirados pela natureza inferior: cólera, ódio, espírito de vingança, ciúme, agressividade; a consagração quotidiana de uma parte de seu tempo a oração e ao silêncio, facilitam a guerra visível e invisível contra as potências das Trevas. Se as terríveis provas de nossa época conduzissem a humanidade a dar a meditação o lugar que merece ter em nosso programa quotidiano, se sua incapacidade para encontrar a paz exterior a impelisse, por desespero, a procurar a paz interior, a própria guerra não seria mais inscrita, inteiramente, na página das perdas do grande livro de contas da História.

A terceira etapa, na longa peregrinação do homem, é a da filosofia. Ela também achou adeptos em consequência dos nossos transtornos planetários, mas, pelo rigor que exige, seu número é muito reduzido. O que eles procuram, de fato, não é somente a satisfação da necessidade religiosa, o desejo místico da beatitude interior, a busca metafisica da compreensão racional, a síntese destes elementos, o equilíbrio com a prática de uma atividade altruísta no meio humano; é também o quarto estado de consciência que não é senão o poder de penetração da Realidade última. Aqui, o homem se encontra por assim dizer face a face com Deus e não indiretamente, através da tela de suas crenças, de seus sentimentos ou de seus pensamentos relativos a Divindade. É a meta oculta, a mesma para todos os homens, quer sejam movidos para Ele através da verdade ou do sofrimento, pelo desejo de paz ou pela razão. Aquele que realiza esta passagem está em condições de considerar todos os povos e suas guerras não somente a luz da política do momento, mas das leis eternas. Pode reconhecer a divindade nas criaturas pecadoras e o único que pode fazê-lo. Percebe o que subsiste de sublime no meio da luta mais violenta. Sua piedade considera todos os homens e mulheres como filhos de um mesmo Pai, mesmo quando se massacram entre si para se apossar de um território. O caminho é longo entre o primeiro broto e o desenvolvimento de uma linda flor; mas não será verdade que os melhores frutos amadurecem lentamente? A pesquisa na qual os membros mais esclarecidos da humanidade se puseram a trabalhar é a mais preciosa de toda a história humana.

Um outro fato se acha atrás da grave significação de nossa época. Como já vimos, pode-se predizer a luta de um centro da consciência contra outros, a partir do momento em que foi projetado fora do Eu Superior. Enquanto a pessoa renega sua origem divina, vive em conflito perpétuo, embora oculto, com essa origem e com as outras pessoas. Isso se relaciona ao fato de que cada ciclo da evolução do mundo possui limites fixados no espaço e no tempo, embora esses limites sejam de tal maneira vastos que não parecem existir no nosso fraco poder de concepção. A consequência disso é que o número de pessoas que nascem para a existência, no decurso de tal ciclo, é necessariamente também finito e limitado. A massa de seres conscientes segue coletivamente o seu desenvolvimento histórico, elevando-se e caindo mais ou menos em conjunto sob o movimento das vagas evolutivas. Aqueles que compõem atualmente a raça humana se acham geralmente num ponto do segundo dos três grandes estágios da vida no planeta, isto é, no estágio intelectual que fica a meio caminho entre o estágio inteiramente voltado para o exterior ou físico, e o estágio inteiramente voltado para o interior ou espiritual. É no curso deste segundo estágio que o processo da individualização chega ao seu limite extremo, que a raça humana atingiu de um modo geral. O desenvolvimento das suas possibilidades latentes, por meio da separação, não pode prosseguir sem conduzir a autodestruição. O impulso evolucionário começa, portanto, a tirar o homem de sua excessiva tendência a individualização para orientá-lo no sentido ideal da união com sua fonte e com seus semelhantes.

Tal é a situação sem precedente que hoje constatamos na terra. O ego, pelo mesmo processo que o projetou nesta exteriorização de sua própria consciência que cremos constituir um mundo material, começou a retrair-se. Esta inversão do impulso se realiza com uma certa brutalidade de ação. Alcançamos a virada espiritual mais decisiva de toda a longa história da humanidade.    Ela aí se acha atualmente, não somente por causa de suas ações externas do passado, mas também por causa de suas necessidades internas atuais.  Se a luta constitui o resultado inelutável do antigo movimento para a separação, o resultado inelutável do novo deve ser a cessação desta luta, o restabelecimento da harmonia.   A luta biológica vai perder sua aspereza e será substituída pelo reconhecimento de valores mais altos que os valores puramente animais. É o sentido geral da declaração otimista contida no primeiro capítulo do "Ensino Secreto Além da Yoga" segundo o qual a humanidade amadurecia a nossa vista, e não havia lugar para desesperar por seu futuro.

Isto, entretanto, não nos dispensa da tarefa imediata que consiste em atravessar este passo crítico no caminho de nossa evolução sem impor o modo de fazê-lo: pacificamente e sem dor se compreendendo e aceitando; ou então brutal e dolorosamente, sem compreender e revoltando-se. A guerra nos fez fraldejar o precipício durante longo tempo. Se um número suficiente de homens e de mulheres não reage ao impacto desses terríveis acontecimentos procurando sua redenção, se uma cultura não adquire uma alma em lugar de pretender que já a possui, se a falsidade e a hipocrisia que prevaleceram tanto tempo e tão profundamente por baixo do verniz da vida pública e dos regimes sociais, não se dissipam pelo efeito de um sopro gelado que a guerra fez circular, tudo ruirá no naufrágio da civilização. A sociedade está doente há muito tempo e sua enfermidade acaba de passar por uma crise perigosa. É preciso que se cure ou desapareça para dar lugar a uma mais sã.

A humanidade pode rasgar, ela própria, o véu apocalíptico deste futuro problemático. Se puder produzir uma minoria de homens e mulheres dispostos a devotar sua vida interior a um dos três vestígios da pesquisa do Eu Superior, para o bem da coletividade, como se fora para seu próprio bem, ou uma minoria suficiente de dirigentes aos quais seu povo possa permitir que se ponha em ação um idealismo social construtivo, baseado na ordem de princípios não materialistas, ela pode estar segura de entrar numa era mais brilhante. Não será necessário que os dirigentes sejam muito numerosos: a qualidade vale mais que a quantidade para o esforço destas almas altruístas que tentarão a redenção do mundo. Assim, a crise social nos reconduz a crise pessoal. Todo homem que prefere irrevogavelmente, em vez de uma vida consagrada a fins egoístas, uma vida votada a fins altruísticos, age não somente sobre sua própria sorte, mas também sobre o destino imediato de nossa civilização. O fato de que essas almas e esses dirigentes existam, traz consigo um clarão de esperança nas pavorosas trevas de hoje. Resta saber, entretanto, se acenderão suficientemente cedo seus archotes e se serão suficientemente numerosas para fazê-lo.

Repitamos ainda que podemos ajudar aos outros e a nós mesmos a transpor esta crise, modificando nosso pensamento, que é criador. A forma imediata que pode tomar nesta criação e o estabelecimento de um canal mental entre a humanidade cega, enganada e sofredora, e sua fonte sagrada, não para nosso próprio benefício, mas para atrair para a terra forças mais elevadas que nos ajudarão em nossa terrível luta contra as forças das Trevas.  Este canal pode ser aberto, tomando uma parte de nossa vida quotidiana para o simples fim de pacificar o espírito e implorar intensamente a Luz divina para que desça sobre nós e por nós para o bem da humanidade.  O lugar que mais convém a esta prática deve ser afastado, a janela de um quarto, assentado sem ter as pernas cruzadas, porque deve ser seguida da contemplação do sol ao amanhecer ou ao crepúsculo. Ela deve prosseguir até que se sinta uma resposta pacificadora que se produz geralmente num espaço de tempo de dez a vinte minutos (ver o capítulo XIV). Há aí uma possibilidade para aqueles que sentem a necessidade de servir a uma causa santa, digna de que no sacrifiquemos por ela.

Os horrores destes últimos anos abriram a humanidade tentativas que nunca tinha conhecido no curso de sua história. Há ocasião se apresenta não só de corrigir seus erros, mas de melhor conceber a vida; de compreender que a vida tem uma finalidade elevada que cada um de nós tem o privilégio de colaborar na consecução desta meta e que as breves horas vividas na cena da existência universal podem ser o prelúdio de outras horas inefáveis. A humanidade ficou tanto tempo afastada das fontes interiores da verdade da esperança que os mais sensíveis de seus membros sentem atualmente uma verdadeira sede. Os materialistas podem dizer o que quiserem, mas não é natural viver unicamente para o corpo. É fácil ver na recente história mundial quanto são espessas as trevas que envolvem o espírito dos homens, mas os mais perspicazes dentre eles podem igualmente distinguir os fracos raios de luz que se alargam na medida que se avança a seu encontro.

A vida humana não é um charco estagnado. Existe já, por detrás de nós, alguma coisa sagrada que deseja exprimir-se e desenvolver-se e que se manifestará tão seguramente, como a alvorada da manhã.

A tragédias que nossa geração conhece precipita este acontecimento. Como se se tratasse de uma ordem, a mocidade de nossos dias sente nascer em seus espíritos ideias novas, espiritualmente exultantes que reanimam sua fé desfalecida no futuro da humanidade.

A doutrina dos ciclos históricos nos ensinou que não há progresso em linha reta para a perfeição; a natureza humana, sendo como é, apresenta inevitavelmente regressões. Mas mostrou-nos que, ao lado de períodos em que a humanidade degenera moralmente, apresenta outros em que progride. E são estes últimos que, no fim de contas, acabam por vencer. O karma tende a instruir o homem e seu Eu Superior o atraí para si. O pecador de hoje pode tornar-se santo amanhã. A despeito do testemunho dos acontecimentos contemporâneos, a humanidade não é tão má como parece; ela é presa num círculo vicioso de erros, que engendra um mau karma, o qual produz, a seu turno, condições mais, que fazem nascer pensamentos maus, aumentando e agravando os erros e o próprio karma ruim. A crise mundial lhe oferece o ensejo de romper o círculo.

Tudo o que luta contra a verdade moral, tudo o que arma a mão fratricida perecerá um dia. Nenhum de nós pode esperar ver este dia, mas nós todos podemos esperar achar em nós mesmos, desde agora, este mesmo princípio sagrado e nos assegurar assim da verdade.   Podemos tomar lugar na unicidade do ser essencial. Podemos esperar tranquilamente que a Mente-Mundial chame a si sua progenitura. Com efeito, nós estamos sempre em caminho para o dia seguinte. Se, entrementes, procuramos colaborar respeitosa e inteligentemente com suas ideias, e ao mesmo tempo aspirar por essa região em que o tempo não existe, nossa paciência não se tornará uma letargia.

É a grande meta para a qual todas as criaturas vivas estão em marcha.  É o final que justificará seus gemidos, suas lágrimas. É o que impede a vida de ser inútil. É a melodia celeste incessante que todos aqueles que tem ouvidos para ouvir, podem perceber abaixo de nossos gritos de dor. Não percamos a coragem. Nesta longa guerra de luz contra as trevas, nenhuma derrocada, nenhuma derrubada brutal dos ideais reverenciados pode ser definitiva. A esperança é a maravilhosa mensagem do Fim desconhecido, a estrela que brilha no ambiente ensombrado, o encorajamento enviado pela Perfeição sublime à Imperfeição que combate.


Paul Brunton

(Capítulo extraído do livro A Sabedoria do Eu Superior. Ed. Pensamento. Página 216 a 225).

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